O mito de Don Juan

Essa semana, para comemorar o ano novo, o artigo será um presente para os amantes de ópera e principalmente para meus colegas psicanalistas! Um amigo meu, entendidíssimo no assunto, me enviou essa preciosidade que dividirei com vocês.

O texto analisa duas personagens da ópera Don Giovanni de Mozart e o mito desse legendário personagem de ficção, conquistador libertino, encenado por muitos autores desde o século XIV na Espanha e publicado nesse mesmo país, pela primeira vez no século XVII.
A ópera de Mozart com libreto de Lorenzo da Ponte, apresentada pela primeira vez em Praga em 1787, parece ser a versão de maior relevância do personagem Don Juan desde então.

Juan e Elvira

Esse breve ensaio atende ao pedido de uma amiga Entre Tapas e é dedicado também às amigas
que assistiram à montagem de Glyndebourne comigo
e os amigos Finley e Pisaroni.

A oportunidade de registrar as impressões seguintes sobre Juan e Elvira, a partir do melodrama de Mozart e Lorenzo da Ponte, serve ao intento de fixar na memória traços marcantes dessas personagens, a partir dessa obra em particular. O mito de Don Juan precedeu a ambos os autores e cerca de dez óperas haviam sido apresentadas antes dessa versão. Mais de quinhentas obras registra Jürgen Wetheimer no seu ensaio sobre Don Juan e Barba-Azul, (Beck, München 1999) na literatura da Europa Moderna. A questão portanto excede o projeto da ópera e não se identifica com posteriores análises científicas, dispensando enquadramento rígido nas ciências sociais ou na psicologia da posteridade.

O predomínio de Juan e Elvira no libreto aponta para consistência temática. A vivência emblemática dos dois personagens chama a atenção para uma possível definição das naturezas masculina e feminina. Seria interessante verificar até que ponto a oposição temática entre ambos, transparente no enredo, pode ser interpretada como manifestação social ou biológica. O redator procurou evitar a semântica do amor, no entendimento de que essa palavra é de conceituação vaga e incerta e serve para metáforas de emprego aberto e demasiado amplo. Trata-se ainda de verificar como o antagonismo dramático transcorre no ambiente humano.

Antes da confrontação de Juan e Elvira no enredo supõe-se um entendimento mútuo que os tenha aproximado. O antagonismo que se seguiu, alimentado pelo descaso de Juan e pelo ressentimento de Elvira, mantém-se com o afeto exaltado dessa última que perdura e sobrevive à morte do personagem título.

A força intransitiva dos projetos de cada um revela em ambos uma natureza individualista e egocêntrica. A individualidade de Juan e Elvira é de tal modo determinante e excludente que impede e bloqueia o reconhecimento da individualidade do outro, que fosse um reconhecimento capaz de exercer ou aceitar qualquer influência externa.

No comportamento de Juan a rejeição de suas parceiras passadas faz parte integrante de um processo de sedução e entrega. A rejeição talvez supere a atração. A união é fugaz. A desunião parece de regra.

O sexo é o modo privilegiado de aproximação social para Juan, sem entrega ou participação afetivas, afetividade que se supõe excluída por Juan, mesmo durante o enlace físico ou suas circunstâncias. Que sua identidade biológica prevaleça sobre outros aspectos do comportamento humano parece evidente, na falta de contactos mais enriquecedores e diversificados, devido à persistência frenética de encontros eventuais e conquistas, um reflexo privilegiado de atributos próprios que não se notaria sem o desempenho de Juan para suplantar a identidade feminina, em favor do exercício de suas prerrogativas pessoais e indivisíveis.

Contudo, se prestarmos atenção, veremos que não é apenas Juan que é motivado por seus interesses próprios e exclusivistas. Elvira também é motivada por interesses exclusivos. Seu apego a Juan mantém-se constante, apesar de todas as provas cabais da falta de respeito e atenção por parte de Juan. A postura auto-referente de Elvira demonstra a mesma intransigência de Juan. Apesar de estar diante de um parceiro tão infiel e inconfiável, todas as manifestações de Elvira refletem um impenitente intuito de atração. Nem as revelações estatísticas de Leporello, nem o conhecimento do crime atroz cometido por Juan podem demover Elvira de seu projeto para ele, ou antes para si própria. Não se evidencia nenhum esforço de desligamento, compensação ou superação de sua atração por Juan. A motivação erótica, explícita em Juan e implícita em Elvira, pode estar determinando o exclusivismo da relação de ambos.

Juan é um exemplar digno de nota por sua atuação fecunda junto às mulheres, não uma personalidade do intercâmbio social em que ocorrem as relações humanas. Pode-se deduzir que para ela, Elvira, contam apenas as qualidades de macho alfa aparentes em Juan, se for apropriada uma expressão emprestada a outras espécies, para realizar um projeto imaginário e preconcebido.

O propósito de afirmação pessoal de ambos exige a aceitação e o reconhecimento de um parceiro exemplar para Elvira e de um sem número de parceiras para Juan, excluída in limine a submissão à parceira de turno, como merecedora de admiração ou simples compassividade, que pode passar por traço comum em relações afetivas mais vulgares.

O binômio homem-mulher desse antagonismo pode ser associado a traços vistos como próprios dos gêneros. Juan é homem de ação, despreocupado da vida interior e do exercício da afetividade, voltado apenas para o mundo exterior que deve aprová-lo como um príncipe do gênero. Seu comportamento sexual não é tampouco apresentado como decorrência de uma sensualidade flagrante ou exaltada. A rejeição sistemática em repetir relações com as mesmas parceiras – que devem ser seduzidas e abandonadas – elimina sistematicamente a expectativa de encontros renovados. Essa recusa de repetição causa alguma surpresa, pois pareceria desejável em vista de uma expectativa progressiva de feitos sexuais com uma parceira conhecida e confiante para um erotismo aprofundado. É sua distinção e independência do gênero feminino que o aprecia como exemplar viril. Nessa relação polarizada, estaria Elvira absorvendo todo o patrimônio emocional e interior conferido ao gênero feminino? Caberia repetir uma frase de complacência que muitos terão ouvido na informalidade? “Ele tem um fraco por mulher.”

O afastamento, como medida de prudência, ou razões menos claras, pode ser associado à prevenção dos riscos associados à afetividade, que incluem o controle e o sentimento de posse pelo parceiro. Não há indícios de abertura para afetos ou formação de laços e ligações, mais ou menos duráveis, muito menos de implantação na sociedade com formação de família, geração de filhos e aceitação de funções sociais e econômicas pré-estabelecidas.

Essa atitude de Juan encontra certamente antecedentes e símiles em padrões que se atribuem comumente ao comportamento masculino, como a pronta saciedade após o enlace. Porém, o que procuramos certificar é o desinteresse de Juan na companhia feminina, antes e depois da relação física. No processo de sedução e abandono parece contar sobretudo a certeza da superação de uma urgência biológica, quer seja imediata em causa própria ou associada a uma promoção de Juan no plano humano em que ele se projeta.

Esse processo excede os limites previsíveis de satisfação ou desafogo imediato, com considerável margem de excessos; não sendo jamais um processo variável, aleatório ou circunstancial. O comportamento de Juan é premeditado e constante (alguém diria patológico, mas estamos em literatura e próximos da alegoria). O que parece interessar aos autores da ópera e constituir-se como objetivo do enredo é a ampliação sistemática do rol de conquistas. É eloquente o registo aritmético mantido por Leporello, interlocutor e intermediário privilegiado de Juan na vida social (“in Spagna 1003”).

Esse comportamento assinala uma competição desenfreada e solitária para valorizar a identidade masculina de nosso herói. Masculinidade atestada pelo desempenho exclusivamente pessoal de Juan, como poderia haver sido, alternativamente, por feitos de alcance social como patrício, chefe de clã, comandante militar, líder político, entre outros. O desempenho de Juan merece reconhecimento em função da sua vitalidade biológica.

Voltando a Elvira, ela contrapõe ao descaso de Juan o apego e a exibição de seu afeto e seus sentimentos de mulher ressentida, sua frustração, sua sede de justiça diante da permanente e declarada expectativa na regeneração de Juan. Evidencia um propósito coerente e impenitente: recuperar a atenção de Juan.

Estariam Lorenzo da Ponte e Mozart imbuídos do desejo de caracterizar comportamentos diferenciados e típicos dos dois gêneros? É interessante assinalar um comentário de Wetheimer: “Devemos deduzir que uma apoteose do impulso sexual, juntamente com irredutíveis mecanismos de cópula, sejam mitos fundadores da modernidade européia? […] a lenda de Don Juan situa-se no ponto de intercessão de uma controvérsia ideológica dos séculos XVII e XVIII com grande fervor. […] trata-se de dois sistemas de valores inconciliáveis. Don Juan encarna um princípio de prazer fundado na violação, no ativismo e na repetição em série, enquanto a cultura burguesa com seus preceitos de prudência, virtude e pureza é representada pelas mulheres.

Sem prejuízo de avaliações mais criteriosas, parece portanto interessante indagar se as prerrogativas sexuais do homem e da mulher criam disposições e aptidões alinhadas com o comportamento de nossos atores.

Se às prerrogativas de iniciativa atribuída ao homem e de expectativa indutora e sedutora, suposta na mulher, corresponder – na trilha de nossos personagens – um desapego masculino e uma constância feminina em laços e contratos que assegurem o sucesso das relações, encontramo-nos diante de um confronto trágico da espécie, sempre que falharem as formas de conciliação social e afetiva impostas pela tradição. Na falta de afeto mútuo ou contrato, os dois personagens permanecem isolados no papel irremissível de cada um.

Surge aí um conflito com força capaz de encaminhar o fracasso pessoal de Juan e de Elvira e que levará ao alegórico e funesto desenlace por Juan, obra de um baluarte social fantasmagórico, conhecido pelo título prestigioso de Comendador, sem nome ou identidade própria.

A nenhum dos dois está facultado encontrarem-se: não podem formar um casal. A intransigência de ambos é motivada por firme convicção pessoal que não abre espaço para que as suas carências naturais facilitem o intercâmbio e o apoio mútuo, antecipado que é entre amantes e amados. Essa afirmação pode parecer, com certeza, mais plausível para Juan do que para Elvira. Mas Elvira demonstra a mesma cega aptidão para ignorar a solidez do caráter de Juan. De todo modo, Mozart e da Ponte não alimentam junto aos espectadores nenhuma expectativa de conciliação. Os laivos de fatalismo que aí se encontram poderiam ser comparados com situações paralelas em outras obras, como Bodas de Fígaro e Cosi fan tutte, mas essa comparação não ocorrerá neste texto.

Da mesma forma para Juan, Elvira apresenta apenas o interesse de legitimar suas reivindicações de reconhecimento e identificação masculina. Ela chega a ser motivo de troça, quando Juan instrui Leporello a personificá-lo junto a ela.

Exemplos que se atraem na diferença entre os gêneros e se afastam depois de uma aproximação passageira que não pode preencher as lacunas de suas vocações individuais. Mais do que um caso único cada qual, o comportamento de ambos exemplifica o que seria uma tendência de os sexos satisfazerem-se a si próprios. O exemplo confirmaria, de modo flagrante, a afirmação feita por Ibn Arabi, há cerca de oitocentos anos no Tratado do amor, segundo a qual quem ama ama a si próprio. Teriam Juan e Elvira almas gêmeas, ainda que perversas, apesar dos pesares?

Para as leitoras críticas do personagem e os mais discretos apreciadores entre os varões, importa considerar que, já no final do século XVIII, Don Juan era um mito em extinção. Malgrado o interesse e o apreço dos maiores nomes da literatura européia no século XIX, ele tornou-se um testemunho de si próprio. Menos que seus congêneres Casanova, Rétif de la Bretonne, Luís XV, o Bom Rei, o Divino Marquês, entre outros, Juan permaneceu no inconsciente coletivo. A escultura na Praça dos Refinadores em Sevilha atesta em bronze que nunca houve homem algum que lhe chegasse aos pés. Quem sabe ele ilustrou o exemplo de Ibn Arabi que comparou o amor espiritual àquele do amante que quer satisfazer o amado. O amor natural seria aquele que procura satisfazer aos próprios desejos e seria predominante entre os homens no século XII de Ibn Arabi. Essa última definição empresta legitimidade a Don Juan.

O herdeiro e sucessor de Don Juan foi Barba-Azul, o assassino de mulheres. Paramos aqui, s.m.j.

2 de janeiro de 2012

3 comentários em “O mito de Don Juan

  1. Yeda querida. É sempre bom ler ou ver o que comunicas ou divides com os amigos através das tuas mensagens. Desejamos um Ano Novo com momentos e dias bons para ti e os teus. Grande abraço, Gari e Izabel.

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  2. Yeda, gostei muito do artigo e tentei mandar um pequeno comentário pedindo que fosse identificado Tirso de Molina (1580-1648), o primeiro a escrever uma bela obra sobre o Don Juan, “El Burlador de Sevilla y el Convidado de Piedra” . Parabéns pelo trabalho que vem fazendo. Saudades. Abs. Barbara

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  3. Yeda,
    Achei incrivel e acredite, li tudo, e comprido, mas adorei! Tenho ido ao municipal em sp, adoro ir. Eles fazem montagens de operas, mas c versoes e cenografias proprias! Ha 2 anos assisti o barba azul, numa versao moderna, cenario de daniela thomas, interessante! Não e como do lincoln center, mas vale a pena!!
    Yeda, um super 2012!!
    Bjs,
    Angela

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