Dicas de Paris

Essa semana nossa parceira e colaborada de Paris, Ana Cecilia Kesselring, escreve sobre o artista Ai Weiwei que está com uma super exposição no Jeu de Paume. Aproveitem!
Exposição: Entrelacs, de Ai Weiwei
Onde: Museu Jeu de Paume, Paris
Datas: 2 de fevereiro a 29 de abril de 2012
Ai Weiwei

Fui à exposição Entrelacs, de Ai Weiwei um pouco desconfiada em relação ao tititi que o tornou artista do momento no mundo das artes e mesmo fora dele. Afinal, ser preso pela polícia chinesa durante oitenta e um dias, ser interrogado mais de cinquenta vezes, ser solto sob fiança de um milhão e trezentos mil dólares, estar proibido de sair da China, ter seu blog encerrado, com todos os arquivos capturados pela polícia chinesa, ter seu enorme atelier demolido da noite para o dia pelo governo chinês, com alegação (duvidosa) de se tratar de construção ilegal, é tudo que um artista precisa para tornar-se quase um herói no Ocidente.

Da série Estudos de Perspectiva, 1995 – 2003

Entrelacs se traduz por Interlacing em inglês, e talvez Entrelaçando em português. É uma clara referência às múltiplas, novas e inusitadas conexões propiciadas pela Internet, mas também às relações tecidas pelo artista em suas inúmeras facetas, que vão do escultor ao artista que realiza instalações, que muitas vezes resgatam tradições antigas de uma cultura em desaparecimento, como no caso da instalação no hall da Tate Modern, Londres, em Sunflower Seeds, de 2010.

Para a instalação o artista encheu o hall da instituição inglesa com bilhões de sementes de girassol, feitas uma a uma em porcelana, mobilizando uma cidade inteira para trabalhar no projeto. A instalação, tinha também conotação política, já que girassóis eram parte da campanha revolucionária, onde se via Mao como sol, e o povo olhando para ele como girassóis.

Já Entrelacs é ainda uma referência a inúmeras atividades do artista: blogger, fotógrafo e consultor de arquitetura. A diversidade, complexidade, e conectividade faz deste artista um digno representante da nossa era.
Sunflower Seeds, 2010

Aos poucos suas obras na mostra do Jeu de Paume, em Paris – o local mais importante de mostras de fotografia e de vídeo da cidade e um dos mais renomados no mundo – me mostram que novamente a curadoria da instituição não se engana nas suas escolhas.

Junho de 1994, 1994

O que está exposto no museu pode ser lido como várias séries fotográficas; uma mostra do percurso fotográfico do artista que começa com imagens em preto e branco, fotografias analógicas dos anos 90 em que registra o cotidiano que o cercava quando morou em Nova York e estudou na Parson’s School of Arts, à fotos tiradas de seu telefone celular atualmente.

No decorrer do intervalo deste percurso, Weiwei passeia com desenvoltura da intimidade das fotografias do seu estúdio, às fotografias e vídeos que denunciam o alto preço do progresso e da modernização da China recente, em paisagem construída por destruição e por canteiros de obras. À estas fotos, feitas depois da sua volta ao país em 93, somam-se também diaporamas das fotografias e extratos de vídeos de seu blog proibido, assim como alguns textos.

E finalmente, à esta incansável produção, junta-se ainda o que não está na mostra, mas que vale a pena ser conhecido pelos interessados em arte: a produção do artista de escultura, e instalações, entre outras coisas.

China Bench, 2004

A mágica de Weiwei revela-se justamente nas ligações que faz entre uma e outras atividade. Ao delicado esculpir da porcelana o artista impõe o peso que mobiliza a força bruta do trabalho “Made in China”. De atividade banal como a de blogger, o artista consegue gerar idéias que de denúncia política se tornam arte.

O trabalho de Weiwei amplia assim o leque de ação da arte contemporânea, incorporando a chamada “baixa cultura” (fotos de celular, por exemplo) à chamada “alta cultura” (escultura, instalação). Ele fala também da impossibilidade atual de um artista limitar-se a estar fechado num atelier para pintar, desenhar ou esculpir, sem estar ao mesmo tempo conectado ao Facebook, Twitter, fotografando com seu I Phone e postando fotos a cada segundo por programas como Instagram. Mas não só isso, fala da impossibilidade hoje da obra de arte estar isolada do que acontece no mundo, política, econômica e culturalmente. O famoso chinês é um artista de seu tempo porque é um comunicador, como o foram os artistas do Renascimento, que transitavam entre a Europa do Norte e do Sul, em múltiplos percursos e discussões perpétuas, se interessando por coisas tão diversas como a botânica ou a medicina.

Artistas contemporâneos como ele parecem revestir-se de um novo humanismo, de forma e velocidades infinitamente mais aceleradas. E também com discussões abertamente políticas e numa posição de crítica social, o que certamente os coloca por vezes em encrencas, sobretudo com alguns governos que ainda são ditaduras. Mas também em evidência.

Terremoto em Sichouan 2008 – 2010

Weiwei parece ter abraçado tantas lições quantas um artista contemporâneo de talento pode abraçar, mas ainda assim manter sua obra próxima ao que importa realmente na arte: a vida, as pessoas, o mundo, os animais. Sua arte parece gerar perguntas como “O que é evolução e em que sentido estamos evoluindo?”.

Ao mostrar em uma série de fotografias uma urna da dinastia Han escorregando de sua mão e se espatifando no chão (Laisser tomber une urne de la dynastie des Han, de 1995), Weiwei dá margem à inúmeras leituras, como toda boa obra de arte deve dar, entre elas a pergunta: como iremos caminhar?

Deixar Cair um Vaso da Dinastia Han

Saio do Jeu de Paume convencida de que saber quem é e o que faz Ai Weiwei, entre tantos outros artistas chineses de talento inegável, só pode enriquecer o debate sobre como perceber este incrivelmente complexo mundo contemporâneo, voltando à indagações muito simples.

Ana Kesselring

Ana Kesselring

Formada em Artes Plásticas na FAAP.
Trabalhou com design gráfico, criando sua própria empresa, a Caligrama.
Viveu nos EUA, atualmente mora na França há quase seis anos.
Bolsa da FAAP como artista residente na Cité des Arts para desenvolver um projeto artístico (2006-7).
Mestrado em Arts Plastiques et Nouveaux Médias na Université Paris VIII (2010). Doutoranda em curso na Université Paris VIII (2011-).
Exposição em São Paulo no Centro Maria Antonia, Centro Cultural, MAC/USP (2002). Exposição na Galeria Monica Filgueiras 2004).
Exposição individual na Cité des Arts (2007).
Exposição na Galerie Sycomoreart, hoje White Projects (2008).
Participa do projeto Paris Art Tours, especializado em visitas guiadas e mediação cultural, junto à Laurent Cendras, com foco em Arte, Cultura e Design.
Colabora como consultora cultural para o site Taste.
Em maio deste ano participara da SP Arte, pela galeria Estudio Buck.

2 comentários em “Dicas de Paris

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