Viagem à Garzón – Uruguai

Fomos para o Uruguai à convite de Piero Achugarry para inauguração da exposição “Ópera” de Thiago Honório em sua Galeria de Arte em Garzón, onde passamos um fim de semana muito agradável.

Saímos de S Paulo num vôo da GOL às 10 hs aterrissando em Montevideo. 

Montevideo
Foto Yeda Saigh

Kátia Gondo e Piero nos receberam no aeroporto com muito carinho.

Antes de seguir de carro para Garzón, almoçamos no Fish Market, ótimo restaurante em Carrasco, um bairro bem chique de Montevideo, cheio de lojas bonitas bares e restaurante transados, e um público super descolado. 

Fish Market restaurante
Foto Yeda Saigh

Depois fomos de carro para Garzón. Nos hospedamos no Hotel Casa Anna, de propriedade de Francis Malmann, um espetáculo! O local possui uma atmosfera rústica, porém extremamente sofisticada, com um bom gosto excepcional. 

Hotel Casa Anna
Foto Yeda Saigh

Anteriormente, o Hotel Casa Anna pertencia a Martin Summers, um importante negociante de arte inglês que se mudou para o povoado há 17 anos a convite de Malmann. 

Hotel Casa Anna
Foto Yeda Saigh

Recentemente, Martin decidiu vender o estabelecimento para Francis e mudou-se permanentemente para o Marrocos, onde já possui uma bela casa há cinco anos.

Hotel Casa Anna
Foto Yeda Saigh

Esse é o pavilhão da piscina!!

Hotel Casa Anna
Foto Yeda Saigh

Nessa primeira noite Piero nos convidou para jantar na sua Galeria, onde saboreamos um divino churrasco, típico uruguaio, comandado por Victor, braço direito da Galeria, e do pai de Piero, o artista Pablo Atchugarry. 

Galeria Piero Atchugarry
Foto Yeda Saigh
Churrasco na Galeria Piero Atchugarry
Foto Yeda Saigh

O café da manhã é servido no hotel de Francis Malmann, que fica ao lado do Hotel Casa Anna, onde nos hospedamos, walking distance. Tivemos a sorte de encontrá-lo lá e poder bater um papo com ele.

Francis Malman
Foto Yeda Saigh

Fomos de carro até Manantiales, bairro entre Punta del Éste e José Ignacio e visitamos algumas lojas. A loja Félix foi a que mais gostamos, vale visitar.

O almoço foi no restaurante do hotel Malmann, que já tínhamos aprovado o café da manhã, delicioso!

Almoço Hotel Francis Malman
Foto Yeda Saigh

À tarde fomos visitar a Bodega Garzón que é muito bonita, o lugar é lindo. Arquitetura arrojada, um projeto milionário e ambicioso do mundo do vinho. Situada em Garzón, a vinícola é de proprietários argentinos bilionários do ramo do petróleo, a família Bulgheroni. 

Bodega Garzón
Foto Yeda Saigh

Em Mendoza, a mesma família também é dona das bodegas Vistalba e Argento. A Bodega recebe turistas do mundo inteiro. Vale a pena reservar um tour com almoço com antecedência. Nessa ocasião acontecia a Vindima, evento anual que marca a colheita da uva.

Bodega Garzón
Foto Yeda Saigh
Bodega Garzón
Foto Yeda Saigh

Em seguida, fomos visitar a escultura chamada Luzia, localizada no meio da fazenda de Heidi Lender, uma fotógrafa americana que lidera a residência artística CAMPO Garzón e realiza o Festival Campo Fest anualmente. O artista Thiago Honório é o autor dessa escultura, que foi criada em 2019 durante seu período de residência no programa de Heidi, a convite do curador Gabriel Pérez Barreiro. 

Escultura Luiza
Foto Yeda Saigh

Thiago nos contou que produziu a escultura em colaboração com um artesão local chamado Pablo, utilizando pedras de Garzón e empregando a técnica local de construção e escultura em pedra. 

A escultura tem a altura do próprio artista e forma um sólido geométrico composto por pedras que abrigam os olhos de Santa Luzia, feitos de vidro e esculpidos em madeira, que Thiago trouxe do Brasil para o Uruguai durante sua estadia. A escultura é uma homenagem à santa de mesmo nome.

Escultura Luisa
Foto Yeda Saigh

No final da tarde, fomos à abertura da Galeria Piero Atchugarry, que apresentava uma bela exposição de Thiago Honório. O artista trouxe para a galeria sua importante série de trabalhos intitulada “Pintura de Parede”, na qual ele criou um mosaico utilizando lixas de parede usadas durante a reforma de seu ateliê. 

Pintura de Parede de Thiago Honório
Foto Yeda Saigh

Esse mosaico respeita a técnica de dobradura da lixa em quatro partes. O aspecto final do trabalho é de uma pele exposta, como se estivesse em carne viva, mas muito elegante, que dialogava com a arquitetura peculiar da Galeria, que preserva aspectos da antiga casa do século XIX, com paredes tortuosas e um piso de ladrilhos de tijolos no mesmo tom avermelhado das obras, criando a impressão de feridas nas paredes. Essas marcas não são cortes, como fazia Gordon Matta Clark, mas sim arranhões que evidenciam a superfície, uma referência frequente do artista à citação de Paul Valéry de que a pele é o mais profundo. 

Além dessa série de trabalhos, Thiago também interveio de maneira sensível desde a sala da galeria até as ruas de terra do povoado, espalhando a obra intitulada “Anahí”, que são flores de Ceibo feitas em cerâmica, reproduzidas em escala real. O Ceibo é a árvore símbolo do Uruguai e da Argentina e remete à história de uma guerreira guarani de mesmo nome. Segundo a lenda, quando ela resistiu à captura de sua tribo, teve seu corpo incendiado, transformando-se nas flores de Ceibo. Essas flores são vermelhas como chamas. O artista presta homenagem ao povoado com essa intervenção site specific que se estende pela galeria e pelos arredores do povoado.

O jantar foi em José Ignacio (vilarejo minúsculo à beira-mar com hotéis de luxo), restaurante Cruz del Sur, muito bom e animado, frequência ótima!

Restaurante Cruz del Sur
Foto Yeda Saigh

No dia seguinte fomos visitar o Museu Maca (Museu de arte Contemporânea Atchugarry), com duas lindas exposições: Le Parc e Kuitca, ambos argentinos. 

Le Park
Foto Yeda Saigh

Em Tierra Garzón, visitamos um belíssimo parque de esculturas ao ar livre criado por Pablo. Além de sua beleza, o local também é uma reserva ecológica e foi onde a Galeria Piero Atchugarry teve sua primeira sede, um antigo estábulo remodelado para abrigar a galeria. 

Atelier Pablo Atchugarry
Foto Yeda Saigh

Em 2019, a galeria mudou-se para o povoado de Garzón. Atualmente, esse espaço em Tierra Garzón é dedicado a residências artísticas e instalações especiais. Além disso, Piero também possui uma unidade em Miami desde 2018, localizada próxima ao design district, que desempenha um papel importante na cena artística local.

Atelier Pablo Atchugarry
Foto Yeda Saigh

Visitamos a Estancia Vik, um hotel em José Ignacio: a família tem uma coleção de arte e recebe para o festival de cinema e a feira S Arte. 

Nesse dia fomos conhecer o Hotel Fasano, muito bonito 

Hotel Fasano
Foto Yeda Saigh

onde almoçamos muito bem!! 

Almoço no Hotel Fasano
Foto Yeda Saigh

Nesse dia também visitamos a loja de móveis Mutate que vale muito a pena conhecer, fica em Manantiales. Recomendo também a Paula Martin, tricôs muito transados.

No final da tarde, o Piero, nosso anfitrião, tinha feito uma reserva para ver a instalação de James Turrel no hotel Pousada Ayana. Os donos, um casal austríaco, mudaram-se para José Ignacio onde construíram esse lindo hotel. 

Hotel Pousada Ayana
Foto Internet

A proprietária nos deu uma curadoria sobre o artista James Turrel. Trata-se de uma construção enorme de mármore branco Lasa Marmo (um dos mais puros do mundo), da região do sul do Tirol, na Itália e lembra um planetário. Éramos 10 pessoas: entramos dentro da construção e deitamos no chão com peles de carneiro porque estava muito frio, com direito a um show de sequência de luzes coloridas que vão mudando. O teto é aberto no meio, sendo possível ver as estrelas. Iguais a esse, existem 50 no mundo!!!

James Turrel
Foto Yeda Saigh

Robert Kofler, um austríaco jogador de polo, se encantou por José Ignacio e decidiu construir uma pousada sustentável, a Ayana, inaugurada em 2020. Quando estava esquiando em Lech, na Áustria, Kofler descobriu uma instalação subterrânea do artista americano James Turrell, acessível apenas off-piste. Ver o céu envolto por luzes coloridas a partir da imensidão branca das montanhas austríacas o fez perceber, na hora, que aquela era a obra perfeita para seu terreno, próximo à praia Mansa em José Ignacio. Intitulado Ta Khut, o site specific Skyspace de Turrell é uma série de centenas de trabalhos comissionados que Turrell já fez pelo mundo, em coleções privadas e públicas – todas únicas e diferentes entre si. Em egípcio antigo, Ta Khut significa “a luz” – e é a luz o que Turrell trabalha e investiga há cinco décadas. A luz é sua matéria prima; o céu, sua tela. 

James Turrel
Foto Internet

Para o trabalho em José Ignacio, a ideia era construir algo semelhante a um templo, que fosse o elo de conexão entre a terra e o céu. O casal pediu a Turrell para esculpir uma fatia do céu dentro de uma estrutura circular com 9 metros de diâmetro e 7 metros de altura feita com esse mármore puríssimo (foram 42 toneladas vindas diretamente da Itália!). O visitante vê o céu uruguaio através do círculo vazado na redoma de pedra branca, que muda de cor a cada 30 segundos conforme as cores e na ordem escolhida por Turrell. A cor da redoma funciona como um globo ocular e influencia como se percebe o céu, que vai se alterando a cada troca de cor. 

James Turrel
Foto Internet

O projeto começou durante a pandemia, via zoom, e terminou com a ida ao Uruguai do artista de 82 anos, que vive praticamente recluso no Arizona. Robert contou que Turrell cuidou pessoalmente da instalação das luzes e da escolha das tonalidades considerando o local da obra. O Ta Khut ganha vida duas vezes ao dia – durante o nascer e no pôr do sol. Turrell pede para que a experiência dure 45 minutos, não seja fotografada, e que o número de pessoas seja limitado – tudo para proporcionar um estado contemplativo.

Meu trabalho não tem objeto, nem imagem e nem foco. Sem objeto, sem imagem e sem foco, o que você está olhando? Você está olhando você olhando. O importante para mim é criar uma experiência de pensamento sem palavras,” explica o artista.

No dia de ir embora fomos tomar breakfast no restaurante La Linda, delicioso!!

Café La Linda
Foto Yeda Saigh

Seguimos de carro até Montevideo, e pegamos o avião para S Paulo às 13h25 pela Gol.

“Fim de semana para ninguém botar defeito”! 

Não poderia terminar esse artigo sem fazer uma homenagem para Luisa Strina:

Luisa Strinaminha amiga, dona da galeria mais antiga e reconhecida do Brasil foi a primeira brasileira a participar da Feira Basel em 1992, e por diversos anos, a única. Figurou por sete anos na lista da revista Art Reviewcomo uma das 100 pessoas mais influentes do mundo das artes. Em 2014 foi fotografada por Anne Leibovitz para uma matéria da Vanity Fair com as 14 galeristas mais importantes do mundo. Construiu ao longo de sua carreira um corpo significativo de artistas, incluindo nomes conhecidos como Cildo Meireles e Leonilson, que dispensam apresentações e marcaram a história da arte contemporânea brasileira. Durante essa viagem que fizemos juntas, tivemos a prova disso. Garzón, o vilarejo que visitamos é habitado por cerca de 200 pessoas, e por muitos anos ficou abandonado, mas há aproximadamente duas décadas está sendo reinventado pelo turismo e pela gastronomia, que logo foram acompanhados por um movimento cultural. Hoje, o vilarejo abriga cinco galerias de arte, e enquanto estávamos lá, duas delas apresentavam exposições de artistas com os quais Luisa colabora. O de Thiago Honório na Galeria de Piero Atchugarry e a de Eduardo Basualdo, um artista argentino na Galeria Walden Naturae. 

Fiquei impressionada em ver como minha amiga Luisa é uma presença bastante importante em um lugar tão peculiar como aquele, que está apenas começando a desenvolver uma cena artística e aspira a ser como Marfa, (cidade onde tem a Judge Foundation). O próprio Piero, que nos convidou para a visita, sempre foi um grande admirador do trabalho de Luisa.

Deixe um comentário