Paris – Inverno de 2012

Nossa amiga, cujo artigo “Um gostinho de Londres” publicamos no final de Janeiro, está em Paris e nos enviou esse delicioso diário de viagem. Tenho certeza que vocês vão adorar!

Depois que o Woody Allen nos deu o direito de voltar no tempo com seu filme Meia Noite em Paris, nós também podemos voltar a meados dos anos 80, quando aqui chegamos com nossos dois filhos de 7 e 9 anos de idade para passar uma estadia de 2 anos. Foi um susto e um prazer, que até hoje tenho vivos na memória. Em menos de 2 meses as crianças estavam adaptadas e nós deslumbrados com as descobertas. Um mundo de cultura desafiante desde a gastronomia até entender o humor local.

A primeira providência foi entrar numa aula intensiva de Francês porque nosso curso da Aliança Francesa não nos dava o bastante para conversar nas rodas sociais e acadêmicas nas quais caímos sem socorro!! Não havia tantos brasileiros como agora, e o jeito era fazer amizades com os franceses. Deu super certo e até hoje guardamos alguns preciosos amigos.

Por falar em volta no tempo, recomendo o livro que acabou de sair em dezembro de 2011: ”E foram todos para Paris – um guia de viagem nas pegadas de Hemingway, Fitzgerald e Cia” do jornalista Sergio Augusto, que escreve regularmente no Estadão, publicado pela Casa da Palavra. É uma delícia, ele faz uma leitura brilhante desta época e nos leva a sonhar um pouco como foram aqueles tempos.

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Jardin des Tuileries
Desde a década de 90, temos vindo quase que anualmente, o que facilita a manutenção das relações de amizade. Mas, como podem achar graça em ir a Paris todo ano no inverno nos perguntam? São os ossos do ofício. Meu marido professor aproveita o ano letivo brasileiro para dar aulas ou seminários aqui nesta época.
Quando a estadia é de mais do que 15 dias, a dica é alugar um apartamento. Tive a sorte de conhecer uma brasileira casada com um francês que organizou a vida de maneira que o inverno daqui eles passam no Brasil e vice versa. Arrumou um esquema interessante para alugar o seu apartamento. Ela tem um blog com todas as dicas: http://www.conexaoparis.com.br

Então, você pode tomar café da manhã em casa, saindo antes para comprar baguette, croissant e o Le Monde, trazendo debaixo do braço e brincando de ser parisiense. Para ter mais prazer ainda no café da manhã, experimente o iogurte grego de cabra com uma colher de mel de lavanda, uma delícia. Desta vez, nosso apartamento fica perto da rue des Martyrs, uma rua de comércio de alimentação incrível e frequentada apenas por parisienses. Tem de tudo, magret de canard com quase meio quilo, noix de Saint Jacques maravilhosos. E os queijos, nem se fala, tem pelo menos duas ou três lojas especializadas com dezenas de tipos diferentes e deliciosos. O Brillard Savarin é um escândalo, pois tem quase 100% de matière grasse. Geralmente os apartamentos de aluguel têm cozinhas razoáveis com os utensílios essenciais e dá para se divertir, vivendo um dia de chef.

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Palais Royal
Esse apartamento que alugamos fica perto da Lafayette Gourmet. Vale uma visita mesmo que você não compre nem um potinho de mostarda ou de geléia. Tem um espaço dedicado aos vinhos e outro dedicado especialmente aos da região de Bordeaux, La Bordeauxthèque. A loja toda é um verdadeiro luxo, é possível encontrar qualquer iguaria imaginável.

Por incrível que pareça, não conhecíamos La Défense. Esta praça é ultra moderna construída há pouco tempo, seu Arco tem uns 100 metros de altura e fica na perspectiva de Arco do Triunfo. É genial se plantar bem no meio da praça e olhar em frente que você vai ver o Arco do Triunfo lá no fundo. Trata-se de um grande centro comercial moderno com todas as lojas grandes e conhecidas. Fomos parar lá por conta de um convite para jantar na casa de um jovem professor que mora em Puteaux, ali pertinho. Foi uma excursão de RER, que nos levou em 3 minutos de Charles de Gaulle – Étoile até lá. O sistema francês de transporte, não tem igual.

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La Defénse
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La Defénse 

A primeira exposição que vimos foi no Museu Carnavalet, aliás, pouco conhecido dos brasileiros. O prédio foi construído em 1578. Em 1866, a prefeitura de Paris comprou para transformar em museu. Esse museu tem jardins impressionantes e conta a história da cidade de Paris desde o século XV. A exposição chama-se: “Le peuple de Paris au XIX siècle – des guinguettes aux barricades” que fica em cartaz até 26 de fevereiro. Os franceses adoram as histórias do passado, o museu estava apinhado de gente, principalmente estudantes e grupos com guias. Uma informação que me chamou atenção. Em 1880, de cada 100 crianças que nasciam, 40 morriam antes de completar um mês de vida. Daí, a prefeitura começou uma campanha organizando as nourrices – amas de leite- e, em pouco tempo, a taxa já caia pela metade. Em 1909, as trabalhadoras de Paris já tinham o direito à licença maternidade de 8 semanas.

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Musée Carnavalet 

Outra exposição vista foi a do Museu de Artes Decorativas (Les Arts Décoratifs). Este museu fica colado ao Louvre na rue de Rivoli. O prédio é incrível, salas com pé direito altíssimo e muito bem recomendado por quem aprecia design. Vimos a exposição do Jean Paul Goude, um verdadeiro multiartista que trabalha com desenhos, fotografia de moda e publicidade e realização de eventos. O cara é um dos maiores mestres de criação visual da atualidade. Ele ficou muito conhecido por ter sido convidado pelo Mitterrand em 1989 para fazer o desfile de comemoração dos 200 anos da revolução francesa. Quem viu ao vivo conta que foi um espetáculo, mas nós que vimos agora pelos vídeos e pelas fotos na exposição confirmamos: esse artista é demais. Trabalha no eixo Paris – Nova Iorque, há mais de dez anos faz as fotos de publicidade da Galeries Lafayette. A exposição fica até meados de março.

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Jardin des Tuileries – Fachada
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Musée des Arts Décoratifs – Interior
Ali na região do Louvre tem um café chamado Le Fumoir bem na esquina da Place du Louvre que é um ponto de encontro sofisticado e a decoração é super bonita. Vale a pena ir tomar um café e apreciar, principalmente, a frequência.
A exposição que está no Quai Branly “Exhibitions: L’invention du sauvage” fica até 3 de junho mostra imagens de “zoos humaines” que surgiram em torno de 1870 e que foram exibidas até os anos 1930. A idéia era que o “negro” constituía o elo que faltava entre o animal e o homem. Entre os negros e a França, há uma história de fluxos e refluxos, uma relação ambígua. A exposição exibe um espetáculo aviltante, mas faz pensar sobre o que
é o racismo, e o mal que causa às sociedades. A diversidade étnica é um ganho e poder     apreciá-la é um privilégio.
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Musée Quai Branly 

Duas outras exposições bem mais alegres são as que estão no Hotel de Ville. A do clássico fotógrafo Doisneau com o tema do Les Halles e a do Sempé com desenhos ilustrativos da cidade de Paris, ambas com entradas gratuitas.

Se você está em Saint Germain e quer ir para a região de Opéra ou Galeries Lafayette experimente pegar o ônibus 95, (ponto fica em frente à igreja de Saint Germain) e pode descer no ponto Opéra, bem pertinho do teatro. Recomendo este trajeto porque é lindo atravessar o Sena, passar defronte à pirâmide do Louvre à sua direita, olhar à esquerda o Jardin de Tuileries, e subir pela majestosa Avenue de L’Opéra.

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Teto Pintado por Chagall na Ópera de Paris 
Essa área tem um comércio incrível. A loja da Apple fica num prédio de esquina antigo na rue Halevy. Logo por ali, tem a loja da Nespresso também maravilhosa. Uma linha de roupas que está fazendo muito sucesso por aqui é a UNIQLO japonesa na rue Scribe. Essa veio para desbancar a GAP e ficou famosa por seus cashemeres de todas as cores. O design é moderno, tem tee shirts e casacos feitos com alta tecnologia do Japão e preços bem razoáveis.

Uma das vantagens de viajar por mais de 15 dias numa mesma cidade é que você tem tempo. Então, nada melhor do que assistir um pouco de televisão. Na França, há um público interessado em temas variados e eles têm tradição nos documentários. Tem um Canal chamado Arte onde vimos alguns documentários interessantíssimos.

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Place Vendome
Uma observação à parte que faço é sobre o hábito da população feminina parisiense frequentar cabeleireiros. Conheço casos de mulheres francesas que só lavam a cabeça no salão de cabeleireiro uma vez por semana. Bem, se você é daquelas que gostam de uma escova e tem preguiça de fazer a própria, vale demais a pena ir a um salão francês. As cadeias Jean Claude Biguines, Frank Provost e Jean Louis David têm filiais em quase todos os bairros e são excelentes. Fazem uma massagem gostosa no couro cabeludo na lavagem e o acerto com a escova é de 100%.
Paris é a cidade dos cinemas. Tem centenas de salas de todos os tamanhos em todos os bairros. Aproveitamos para ver filmes franceses e de outras nacionalidades que nem sempre chegam ao Brasil e quando chegam ficam por pouco tempo e não há quase publicidade.
O último mais famoso aqui foi o Intouchables visto por mais de 18 milhões de pessoas em toda a França, desde quando foi lançado há dois meses. Corremos para ver, já que se trata de um fenômeno de bilheteria. É bom, mas não justifica tanta fama. Baseado numa história verdadeira, o filme conta a relação muito particular de uma pessoa com necessidades especiais e sua relação com seu cuidador.
O The Artist , visto por 11 milhões de pessoas, é uma homenagem ao cinema mudo e é realmente muito interessante. Está concorrendo ao Oscar de melhor filme. O “Si on vivait tous ensemble” é bonitinho com grandes nomes – Geraldine Chaplin e Jane Fonda.
Uma peça muito interessante é sobre a vida do italiano Ponzi, o anti-herói do seu século, que terminou sua vida pobre no Brasil em 1949 jogado às moscas num hospital público – como comentam na peça. Chamada “a ópera de um milionário” faz uma boa radiografia dos primeiros tempos do capitalismo, suas crises e escroquerias. O diretor é David Lescot e está no Théâtre de La Ville de Abesses. Está sendo muito comentada por conta do momento atual da crise européia.

Se você quiser ter uma verdadeira experiência gastronômica, reserve uma mesa no Spring. Fica no 6 rue Bailleul, ruazinha pequena perto do cruzamento da rue de Rivoli com a rue du Louvre. Para jantar, é necessário umas 3 semanas de antecedência, mas para almoço é mais fácil. O chef é um americano de Chicago, que fez todas sua formação na França e propõe um menu degustação. Não há cardápio no restaurante. Antes da reserva, eles perguntam se você tem alergia, se é vegetariano, ou se tem algo que não suporta (contact@springparis.fr). E assim, tudo é uma surpresa!! A delicadeza e visual dos pratos são incríveis. Por mais que eu me sinta ligada em gastronomia, por minha conta e risco, eu prefiro os restaurantes em que você escolhe o que vai comer, mas fomos convidados por amigos franceses que são ligados no assunto, conhecem tudo da cidade, e adoram descobrir coisas diferentes. Foi uma experiência feliz, as sobremesas também são encantadoras.

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Restaurant Spring
O restaurante Chatomat fica no número 6 rue Victor Letalle, Paris 20, telefone: 0147972577. Este bairro está muito na moda e quem está “branché” não frequenta mais as redondezas de Saint Germain ou dos Champs Elysées, consideradas coisas de turistas. Saint Germain então é o preferido dos turistas brasileiros. O restaurante é minúsculo, portanto reserva é obrigatória. Sua cozinha é considerada brilhante e está na lista dos mais promissores da cidade junto com o Septime, que fica na rue Charonne 80, telefone: 0143673829. Inaugurou em maio de 2011, mas já é o restaurante do momento. O chef é Bruno Verjus, badalado por sua generosidade, bom gosto em tudo que faz. Ele não fez nenhuma propaganda e o que realmente funcionou foi o boca a boca (bouches à oreilles). Já existem várias resenhas de blogs americanos e franceses. Adoramos os dois, recomendo fortemente!
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Restaurant Septime

Há muitas alternativas para quem quer gastar pouco e comer relativamente bem. Fica bem perto da Galeries Lafayette uma pizzaria chamada Tivoli, na rua La Fayette. Está ali há mais de 20 anos, a pizza é excelente e é servida o dia inteiro. Para almoço, é uma boa dica, a salada toscana é deliciosa, tem também massas e uma boa variedade de sobremesas.

Apesar da quantidade de turistas, ônibus repletos de japoneses com guia hasteando bandeirinha, chineses, russos e brasileiros especialmente nas grandes lojas e em Saint Germain e Champs Elysées, Paris continua um espetáculo. O jeito é frequentar outros cantos. O Marais ainda se salva dos turistas em grandes grupos. O 11º está bem bacana e Belleville também. Vale a pena arriscar passeios a pé por estes e outros bairros fora do circuito convencional, mesmo que tenha que suportar temperaturas abaixo de zero como as deste inverno.

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Belleville
 

5 comentários em “Paris – Inverno de 2012

  1. Muito legal seu blog, ótimas dicas.
    Estamos nos preparando da visitar Paris em janeiro de 2012, meu irmão vai me emprestar o carro e partiremos de Viena. Gostaria de uma dica de algum bairro tranquilo e perto (periferia) de Paris pois apartamento com estacionamento no centro de Paris é meio impossível.
    Desde já agradeço, abraço!!

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